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Uma abordagem puramente mecanicista para problemas ortodônticos pode ser um
problema para o profissional da área de saúde. Contrariamente, a abordagem
puramente biológica pode levar os entusiastas da mecânica a se refugiarem atrás
do clichê de Machiavel: “é o resultado que conta”. Aqui, o termo mecânica é
usado ponderamente, se não vagamente. A mecânica física é um ramo da ciência
física que trata da ação de forças nos corpos. O termo mecânica, conforme usado
na literatura ortodôntica, está relacionado com a manipulação ou a técnica do
aparelho. Infelizmente, o coeficiente de correlação entre essas duas
interpretações às vezes é muito insignificantemente. Na realidade, no que diz
respeito aos fundamentos científicos, deve haver completa compatibilidade entre
os princípios da física e da biologia. De forma simplista, pode-se considerar
que o movimento de um dente é a resposta biológica à aplicação de forças.
Enquanto a responsabilidade biológica nem sempre pode ser totalmente entendida
ou, talvez, ser repleta de variáveis ambientais incontroláveis, as leis
fundamentais da física devem ser completamente aplicadas. Muitas tentativas
de analisar a aplicação de forças para a movimentação dentária têm demonstrado,
se não um completo desconhecimento dessas leis fundamentais, pelo menos alguma
irreverência. O fato de os dentes possuírem alguma tendência para não serem
fiéis a essas leis do universo é insustentável. Alguns diagramas de forças de
ação e reação nos dentes a nas estruturas adjacentes, como apresentadas na
literatura, dão poucas evidências de equilíbrio e apenas confundem o leitor,
tais como a natureza de tal ação de força. A aplicação inteligente das causas
motivadoras, isto é, as forças, é pré-requisito para um resultado ortodôntico
desejável. O verdadeiro entendimento da resposta biológica para a ação das
forças nunca pode ser alcançado sem, primeiro, obter-se um conhecimento profundo
da ação de força envolvida. O uso clínico da tração cervical, bilateral ou
unilateral, não é novo, mas uma análise rigorosa da distribuição de forças de
tal sistema pode ser de interesse. Primeiro, consideremos o arranjo do arco
superior em que o primeiro molar permanente esquerdo esteja numa posição mais
anterior que o direito. Assume-se que o pré-requisito para a aplicação do
desenho da tração excêntrica é uma posição excêntrica do dente (o problema deve
existir antes de alguém procurar por uma solução). O problema, então, é a
aplicação de força via tração cervical de forma que a força no molar esquerdo
seja de maior magnitude do que no molar direito. O arco e as bandas serão
considerados como uma única unidade fixa que transmitem forças para o centro
teórico das coroas. Se as forças A e B forem iguais, o resultante
de força R (aquela força única que poderia reposicionar completamente A e B
juntos) estaria na linha média e na mesma direção, com uma magnitude igual a A
mais B. Entretanto, se a força A for maior que a força B, então a resultante
R deve estar mais próxima de A. Assumindo que o paciente é relativamente
simétrico em relação ao plano sagital médio, como pode ser a distribuição de
forças para incluir forças posteriores desiguais nos molares direito e esquerdo
e ainda satisfazer as condições de equilíbrio? As condições para um
equilíbrio coplanar (um plano) são: 1. Σ Fx = 0 (a soma das forças na direção
X é zero). 2. Σ Fy = 0 (a soma das forças na direção Y é zero). 3. Σ Mo =
0 (a soma dos momentos sobre qualquer ponto é igual a zero). Agora, se uma
tração extrabucal rígida fosse fortemente adaptada ao pescoço ou à cabeça,
forças desiguais poderiam ser aplicadas em A e B, porém este procedimento
poderia exigir o uso de alternativas tais como um grampo em “C”. Uma vez que as
objeções do paciente poderiam desencorajar tais medidas como a fixação do arco
facial à vértebra cervical, como poderíamos usar a tira de elástico mais
convencional? A tira de elástico, pela sua própria natureza, aplica forças,
direita e esquerda, que são de iguais magnitudes. A fricção entre tira e pescoço
merece ser considerada, mas acredita-se que com o passar do tempo vários
movimentos da cabeça do paciente poderiam anular tais efeitos. Para este
propósito, considere a tração cervical em que um braço do arco facial seja maior
que o outro e a conexão entre o arco facial e o arco labial seja sólido (não
articulado). Aqui o molar esquerdo está numa posição m, anterior em relação
ao molar direito. O eixo X divide arbitrariamente esta distância m e é
perpendicular ao plano médio sagital (eixo Y). As forças FL e FR aplicadas pelo
elástico são de iguais magnitudes, porém, devido aos comprimentos desiguais do
arco externo, a direção dessas forças não é simétrica em relação ao centro da
linha da cabeça. Agora a resultante F dessas duas forças (a bissetriz do ângulo
formado por elas) não é a linha central, mas está em um ângulo desta linha
central de forma que ela cruze o eixo X no lado do braço mais longo (lado
esquerdo). Para simplificar, a origem do vetor representando essa resultante é
dada do ponto onde sua linha de ação intersecciona o eixo X. A resultante é
dividida em seus componentes, Fx e Fy. A distância intermolar d é dividida por
esta intersecção nas distâncias a e b. As forças reacionárias nos molares são
representadas pelos componentes X e Y, que são, RLY, RRY,RLX e RRX. Para
alcançar o equilíbrio, devemos considerar todas aquelas forças exercidas no
aparelho (neste caso, a combinação entre arco facial e as bandas). Se o aparelho
está colocando força no dente, então o dente (mais especificamente seu ligamento
periodontal e osso) está exercendo uma força reacionária no aparelho igual em
magnitude e oposta em direção. O interesse primário é nesta relação de magnitude
de RLY e RRY. Agora as equações coplanares de equilíbrio podem ser
aplicadas: 1. Σ Fx = 0
Fx - RLX - RRX =
0
Os sinais positivos representam forças de ação para cima e para a direita, e
os sinais negativos são forças de ação para baixo e para a esquerda. RRX pode
ser considerado como sendo igual a RLX. Esta suposição pode ser explicada pelo
uso do cálculo e do método da energia elástica. Esta equação pode agora ser
reescrita: RRX =RLX = Fx/2
2. Σ Fx = 0 - Fy + RLY + RRY = 0
3. Σ Mo = 0
Um momento pode ser considerado em volta de qualquer ponto, e simplificações
sugerem o ponto 0 no eixo X no molar esquerdo. Portanto,
- Fy . a - RRx . m/2 + RRY . d + Rlx . m/2 =
0
Desde que RRx = RLY, esta equação reduz-se a – Fy . a + RRY
. d = 0.
Para RRY, RRY = Fy . a / d. Substituindo na equação n. 2,
- Fy + RLY + Fy . a/ d =0.
Para RLY, RLY = Fy – Fy . a/d = Fy.b/d.
Agora comparando essas duas forças, RRY e RLY, parece que a força no molar
esquerdo é de maior magnitude que o do molar direito, porque a distância b é
maior que a distância a. A proporção entre essas forças seria a proporção das
distâncias a a b. Assim, um modo de se obter clinicamente tração cervical
excêntrica é deixando o braço externo do aparelho extrabucal mais longo no lado
em que se deseja mais força. Uma relação ótima das forças nos molares seria de
dois para um, porque se a resultante de força F cruzar o eixo X muito próximo de
um dos molares, isso poderia reduzir a força no outro molar até um ponto onde
haveria perigo de inadvertidamente desencaixar o aparelho do tubo. Se a
resultante F cruza o eixo bucal X no molar esquerdo, a força no molar direito
estará numa direção para frente (tal força não pode ser desenvolvida com uma
conexão comum entre o tubo e o arco extrabucal). Além disso, as forças
laterais liberadas nos molares deveriam ser relativamente pequenas e, uma vez
que essas deveriam ser a função de co-seno do ângulo que a força resultante faz
com eixo X, esta força lateral deveria aumentar apreciavelmente com uma pequena
diminuição no ângulo. Parece não haver nenhum jeito de eliminar completamente as
reações laterais deste método de tração cervical, mas essas reações são sempre
relativamente pequenas. A consideração principal, portanto, no desenho de um
aparelho de tração cervical excêntrica é aquela em que cada ângulo geométrico
formado pelo final da tira de elástico tangente ao pescoço é tal que a bissetriz
daquele ângulo passa mais perto do molar mais anterior do que do dente
oposto. Uma analise da tração convencional cêntrica ou cervical bilateral
mostra simetria na direção e magnitude das forças FL e FR desenvolvidas pelo
elástico. Portanto, a resultante ou bissetriz do ângulo formado por essas duas
forças deveria coincidir com a linha média sagital. É evidente, então, que esta
bissetriz irá dividir a largura intermolar d em partes iguais, a e b. Na análise
anterior foi mostrado que a força reativa anterior-posterior nos molares direito
e esquerdo (RRY e RLY) são diretamente relacionadas uma com a outra, assim como
a relação das distâncias a e b. Assim, se a e b são iguais, então as forças nos
molares, RL e RR, são iguais, que é exatamente o que deveríamos esperar uma vez
que a bissetriz resultante passa na linha média sagital. Não são desenvolvidas
forças laterais nos molares. Um aparelho popularmente usado na tentativa de
obter aplicações de forças excêntricas nos molares direito e esquerdo é aquele
no qual a fixação entre os arcos interno e externo está deslocada para um dos
lados. Pelo menos se espera que tal aparelho distribua mais força no molar mais
próximo da conexão entre os arcos interno e externo. Uma análise rigorosa
similar às análises prévias usando as três equações fundamentais de equilíbrio
coplanar mostraria exatamente os mesmos resultados que aquelas para o equilíbrio
cêntrico e bilateral. Aqui novamente as forças induzidas pelo elástico, FL e FR,
são iguais e simétricas com referência à linha média sagital da cabeça. A
resultante ou bissetriz do ângulo cai nessa linha sagital média, de novo
dividindo a distância intermolar em partes iguais. E, mais uma vez, as forças
reativas nos molares RR e RL deveriam ser iguais. Novamente, as forças laterais
nos molares são iguais a zero.
Este resultado deveria ser evidente puramente a partir de um fundamento da
mecânica: em um determinado problema estático, a configuração interna de um
corpo rígido não afeta a distribuição de forças externas no corpo. Assim, não
importa onde a conexão rígida dos arcos interno e externo seja colocada,
contanto que a aplicação de forças na região cervical seja simétrica em relação
ao plano sagital médio, as forças reacionárias em ambos os molares direito e
esquerdo molares serão iguais. Deve ser notado que as forças nos molares,
como registrado nos medidores de tensão, são iguais. Modelos
pré-tratamento são marcados como A; modelos feitos seguindo tratamentos
preliminares, se algum, mas antes da tração excêntrica são etiquetados como B; e
modelos feitos depois do período indicado do tratamento com tração excêntrica
são etiquetados como C. A tração excêntrica estava sendo realizada na época em
que os modelos finais foram feitos. Diversas sugestões deveriam ser levadas
em considerações para o uso do aparelho extrabucal cervical excêntrico: 1. A
diferença no comprimento dos braços externos não precisa ser grande, apenas o
suficiente para alterar a geometria de forma que a bissetriz resultante cruze a
linha molar próximo do molar posicionado mais anteriormente em relação ao
oposto. Diferenças excessivas no comprimento dos braços poderiam aumentar as
forças laterais. 2. O diâmetro dos arcos pode ser aumentado para uma maior
rigidez; é sugerido que o braço interno seja de 0.055 polegadas e o braço
externo de 0.075 polegadas (o braço interno de 0.075 polegadas é aproximadamente
cinco vezes mais rígido que o de 0.50 polegadas). 3. Os braços do arco facial
não devem encostar nas bochechas para não introduzir mais forças laterais
indesejáveis.
CONCLUSÕES
1. Uma análise crítica das forças produzidas por diversos desenhos de
ancoragem cervical usando tiras de elástico mostra que o princípio fundamental
envolvido na distribuição das forças nos molares direitos e esquerdos é a
geometria da direção das forças direitas e esquerdas liberadas pelo elástico
cervical. Se essas forças forem simétricas com referência à linha média da
cabeça, a distribuição das forças reacionais sobre os molares direito e esquerdo
será equivalente, independente do desenho do aparelho (ou do ponto de ligação
entre o arco externo e o arco interno). Se a direção das forças for assimétrica
em relação à linha média da cabeça, os componentes ântero-posteriores das forças
reacionais nos molares direito e esquerdo serão desiguais, sendo que o molar
mais próximo da resultante de ambas as forças receberá a maior força. 2.
Pequenas forças laterais nos molares são sempre liberadas pela forma excêntrica.
Estas forças podem ser manipuladas para que toda a reação lateral ocorra em um
lado ou no outro, abrindo ou fechando o arco interno. 3. Nenhuma tentativa é
feita para avaliar a resposta biológica dos tecidos sobre essas forças. Somente
as forças são discutidas, pois, devido às diversas variáveis biológicas e
morfológicas, mesmo a resposta unilateral às forças bilaterais podem ser
observadas ocasionalmente.
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